So What is This About?

aCerca do espaço

Dentre as várias idéias e incursões pelas ruas da cidade, surgiu a proposta das cercas. Internas e externas, visíveis e invisíveis, elas estão em toda parte, nos cercam e fazem parte de nós. Delimitam espaços, têm fissuras, permitem/determinam contatos específicos.

Quando propusemos a interferência aCerca do espaço queríamos poetizar e discutir a relação de cada um com o espaço que o cerca e com as cercas que construímos ao nosso redor. Poetizar a vivência da cidade, por meio de dispositivos que busquem tensionar as fissuras que a “cidade privatizada” provoca no espaço vivido.

Cercamo-nos para não sermos invadidos, para não sermos atingidos e atravessados. Para nos livrarmos do indesejável. São cercas e muros erguidos cotidianamente por nossas construções reais e simbólicas.

Esta proposta nos levou a nossa primeira intervenção além das fronteiras das Gerais, no Corpocidade, em Salvador.

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Resumo Conceitual: vivências do espaço

A importância que a esfera do privado vem tomando no tecido da cidade é visível. Está presente desde a valorização do transporte individual, em carros carregando apenas um indivíduo, até a onipresença dos shoppings (templos de consumo, aparência e homogeneidade; monumento ao privado e ao totalitarismo soft de consumo nada soft), alcançando ainda a esfera da cultura (fetichizada e demarcada, hoje, como território de marcas – produtos, pessoas – famosas, às quais agrega valor). Neste processo, encontramos a experiência da rua, território próprio do público e do político, como “residual”– a rua passa a ser uma fissura da cidade, o resíduo, indesejado, daquilo que não se pôde privatizar.

Nesta proposta, desejamos tensionar a dimensão da alteridade que subjaz a esse processo de privatização, posto que a subjetivação produzida na cidade contemporânea, parece sofrer também um movimento de privatização. Por isso, sabemos que qualquer reflexão sobre a relação cidade/subjetividade encaminha-nos ao campo político, do mesmo modo como as intervenções urbanas atingem os modos de subjetivação.

Foras dos limites móveis do centro, outras significações se aplicam ao espaço, outras formas de transitar. Dentro ou fora, dentro e fora, do centro da cidade, o espaço urbano é sempre dispositivo de produção da vida pública, pois possui a dimensão do humano em todos os seus cantos e em sua produção simbólica.

É o espaço público o espaço do conflito. Contudo, o mundo privado – cercar, controlar, vigiar, conter, intensificar, produzir – propõe proteger-nos deste conflito que, por sua vez, é ineliminável. É preciso, assim, tomar a cidade por seu movimento (pela forma como o espaço é apropriado, produzido e reproduzido), não a perceber apenas por meio de seus aspectos exteriores. Vivenciar a cidade, com suas cercas e muros, delírios de controle e segurança. Materializar e tornar visível o que já se faz familiar e introjetado – subjetivado e desejado. Enfim, entendemos que intervir nesse espaço é transformar sua vivência cotidiana. É justamente na cidade, ainda, que emerge o novo, a transgressão. A cidade, ela mesma, nos obrigada a conviver com a diferença (ainda que o façamos nos dispositivos de mediação protegida - suportes de “através”: cercas, muros, grades e simulacros), é nela que emerge o presente, sua inventividade, sua transgressão.

Fotos de Philippe Lobo e Maria Luísa Nogueira