O espetáculo foi criado em 2007, a partir de uma proposta de investigação sobre o espaço urbano e suas relações com os espaços pessoais.
No início daquele ano, o Zona decidiu pela montagem de seu segundo espetáculo. Depois da experiência com a intervenção no Teatro Marília, resolvemos criar um trabalho que pudesse ser apresentado em espaços alternativos ou teatros – desde que não definidos pela estética do palco italiano, com aquela distinção marcada entre palco e platéia.
Enquanto investigávamos como nosso espaço era interferido, o espetáculo começava a ganhar forma: em abril, durante o XI Colóquio Internacional de Psicossociologia e Sociologia Clínica, promovido pela UFMG, realizamos uma intervenção intitulada De quem é meu espaço? Em agosto, no Estúdio Dudude Hermann, nova experimentação, na qual outras cenas e descobertas foram trazidas à tona. Entre setembro e novembro destrinchamos nossas bolsas e o que carregávamos nelas; percorremos o Poema Sujo de Ferreira Gullar, O Uivo, de Guinsberg, e O Outro Quarto, de Bukowski; descobrimos outras maneiras de perguntar ao público se podíamos entrar no seu espaço; experimentamos fitas crepe, escovas de dentes e cartas de amor.
Estreamos em Novembro, no Espaço Ambiente, em Belo Horizonte.





Hipóteses em construção: De quem é seu espaço?
De quem é meu espaço? é uma proposta de interação entre performers e público: como discutir o espaço sem compartilhá-lo? Se ambos, intérpretes e audiência utilizam (ocupam) o mesmo espaço, como evitar a contaminação de um pelo outro? Como pretender que eles não estejam unidos e interfiram entre si? Mais que isso: essa interrelação é parte construtiva do próprio espetáculo; a relação desses corpos e dessas subjetividades transforma-os, dá-lhes novo significado e recria a ação da cena.
A pergunta, ou uma das perguntas possíveis é: quando um corpo interfere com outro? Quando um objeto interfere com um corpo? Quando o tempo – o tempo cíclico do dormir-acordar pressionado pelo horário dos programas de televisão, do trabalho, do colégio; o tempo do transporte, ônibus metrô carro trânsito tráfego, o tempo das compras de natal dia das mães dos namorados dos pais das crianças – quando este tempo pessoal é atravessado, direcionado e possuído pelo tempo externo da sociedade, de um Outro muitas vezes sem nome e sem identificação? Quando o espaço é realmente nosso, quando nós realmente o construímos e possuímos? Quando (o quanto) ele é deformado e invadido e refeito por outros corpos, pela engenharia que determina vias e fluxos, pela arquitetura que diz onde se deve e onde não se deve parar sentar respirar? Ou o quanto somos tomados por sons, múltiplos sons, os carros, as músicas, as vozes que entram, penetram sem pedir a devida licença?
De quem é meu espaço? é um improviso, já que é definido pela relação entre performers e público. Mas é também uma construção poética, feita de imagens, sons, palavras e movimentos. Da interação entre a música, a palavra e o movimento, deslocamos nosso espaço para que outros entrem e se relacionem.
Interfiram.





Daniel Furtado
O toque:
Posso tocar no teu joelho?
Posso deitar-me aos seus pés?
Posso roçar os meus cabelos no seu cotovelo?
Posso te dar um beijo?
Posso pousar minha cabeça nos teus ombros?
Posso encostar a minha mão no teu rosto?
Posso encostar o meu rosto na tua barriga?
Posso encostar a minha coxa na tua coxa?
Posso entrar no teu espaço?
Posso te olhar nos olhos?
Posso me aproximar?
Posso segurar na tua mão?
Posso tocar nos teus cabelos?
Posso te fazer um carinho?
Posso te contar um segredo ao pé do ouvido?
Posso me apoiar em você?
Posso te cheirar?
Posso passar meu braço sobre o teu ombro?
Posso te abraçar?
Posso te fazer cócegas?
Posso te dar uma lambida?
Posso sorrir para você?
Posso me afastar?
Posso te cumprimentar?
Posso mudar de idéia?
Posso te ver melhor?
Posso te dizer uma coisa?
Posso te agradecer?
Posso me apresentar?
Posso criar um vínculo com você?
Posso te apertar?
Posso?
Posso?



Fotos de Luiza Vianna

Corpos Subjetivos em Espaços Móveis(Grupo Zona de Interferência)
Local: Centro Cultural da UFMG - Av. Santos Dumont, 174. Centro. BH/MG
11 a 13/09; 18,19 e 20/9; sextas, às 20h, sábados e domingos, às 19h
Informações:(31)3409 - 1090 / (31) 8833 - 1317/ www.zonadeinterferencia.com zdi@zonadeinterferencia.com