The Road to Enlightenment

Enquanto trabalhávamos na construção do De quem é meu espaço?, percebemos que tínhamos material e idéias suficientes para uma outra montagem. Escolhemos, então, como recorte para essa nova etapa a discussão sobre os processos de subjetivação; a mobilidade dos espaços – ecológico, urbano, virtual, psicológico –; as diversas velocidades de transformação da metrópole. Como isso, mergulhamos mais fundo nos tecidos dos espaços urbanos, nas relações dos nossos corpos com essas paisagens. Elegemos como uma das formas de pesquisa e experimentação as intervenções no espaço vivido da cidade, confrontando e tensionando nossos corpos-subjetividades nos encontros que aí são produzidos – ou evitados. Dessas intervenções e pesquisas surgiu o projeto aCerca do espaço, que tem nos levado a discutir mais a fundo a questão dos espaços públicos.
Corpos Subjetivos em Espaços Móveis encontra-se em construção. Atravessado por perguntas e angústias, pelo desejo de confrontar o espaço móvel que a tecnologia nos oferece com a matéria fluída de nossos corpos.

...convite à experimentação...

Jardel Sander

Corpos subjetivos são de carne e afetos. É carne afetada: sensações, sentimentos, medos, curiosidades, faltas e excessos. Corpos subjetivos referem-se ao movimento e à impossibilidade de se mover; aos espaços vividos e aos espaços mortificados. São as cores da cidade, como uma camada de pigmentos sobre o excesso de cinza; são flores que brotam no asfalto.

Corpos subjetivos em espaços móveis tratam das cercas, do afã de nos protegermos, nos isolarmos. É uma mistura do mais dentro e do mais fora, suas impossíveis trocas, seus contágios. Corpos-espaços-subjetividades-móveis na aceleração dos dias que não se acabam, na expansão verticalizada da cidade que se fecha. Cercas, telas, grades, concreto, asfalto, cercas eletrificadas, porteiros eletrônicos, câmeras... eu te vejo me ver do lado de fora Eu te sonho entrando sem fazer barulho, sem fazer diferença, sem trazer sua diferença consigo. Mal consigo dormir de medo que as cercas não funcionem direito, ou direito demais. Afinal, o que temo?

Eu tremo com carros passando na rua, treme a rua ao passar dos carros. Na cidade que se acinzenta, a fumaça compõe a eterna paisagem, num tom-sobre-tom monocromático. Meu corpo se move frenético, mas respira pouco. A fumaça me invade. Meu corpo frenético tenta se mover quando parado de dentro do carro vejo todos os carros em anseio de movimento. Nossa excitação em conjunto gera mais fumaça.

Intervimos na cidade, formamos paisagem. Geralmente com nossos trajetos retilíneos. A cidade não se permite mais parar, não se senta, não se deita. Corpos subjetivos deitam pra ver o céu; querem pular as cercas que nos contém – em nossos olhos, em nossa pele.

Nossos corpos-armadura nos permitem mergulhar no trânsito, num movimento estático em torno de nós mesmos. Giramos em volta do nosso modo de vida. Os espaços móveis são o próprio retrato da nossa impossibilidade de parar; mas são também as linhas de fuga. Por onde se foge, ou melhor, por onde se faz fugir? Como romper os canos e deixar os fluxos respingarem para que a vida se lambuze um pouco mais?

Nossos corpos se subjetivam por imagens. Eles tendem a se tornar – eles próprios – somente imagens. Intensidades tocam os olhos. Só nosso olho vibra. E se eu tapar teus olhos será que ainda viverás? Será que ainda reconhecerás a vida, será que te reconhecerás como vivente? E teu corpo, ele existe sem que te vejas? Corpos subjetivos procuram por um olhar que fareja, ouvidos que vêem, uma língua que escuta, e um tato apurado que sente os abalos da vibração dos mundos em profusão.

Atravessar as imagens, valer-se delas, não se deixar abduzir por sua sedução fácil e repetitiva. Espaços móveis são também imagens recriadas e criacionistas, que expandem o mundo em plurais, que dissolvem o corpo, num dentro-fora, fora-dentro, suas misturas infernais e improváveis. Afinal, onde estás que sempre respondes? Por que tão longe, por que tão perto, por que tão alto? Por que não te cales para que te ouças? É ainda possível algum silêncio? Conseguiríamos viver assim? No telefone celular sempre ouço a minha voz do outro lado da linha... será que o outro sou eu?

Com tantas luzes e os sons que nos assaltam cotidianamente, com tantos cheiros, com tantas fumaças, o silêncio parece impossível. Corpos subjetivos buscam silêncio. Buscam gestos que ainda falem alguma coisa, talvez sussurrando a nossa pele alguma mensagem secreta.

Corpos subjetivos buscam as sombras, sua dança, através da qual o corpo possa ser outra coisa: imagem dissoluta de um corpo movente. Na relação sombra-anteparo poderia o corpo virar paisagem? Poderia sua borrada forma inspirar novas cores?

A sombra desperta meus outros. Meu corpo já não me pertence. Mas, afinal, alguma vez os possessivos fizeram sentido ao corpo? O que é meu? O que sou eu? Corpos subjetivos é um exercício de despersonalização. Em espaços móveis, corpos subjetivos entram e saem. Trazem um pouco de dentro para fora; e uma porção de fora, fazem entrar. Mas, mais que tudo, fazem fugir!

Seja bem vindo, pois! Pode entrar sem medo. Mas com medo também vale. Talvez ele se perca em meio a tantas linhas espalhadas e proliferantes deste rizoma a que te convidamos a ingressar.